Por Érico Mafra

Analista de Marketing Internacional en Rock Content.

Publicado em 23 de abril de 2019. | Atualizado em 27 de agosto de 2019


O Jornalismo de Dados é uma modalidade de produção digital de notícias que utiliza grandes bases de dados para elaborar peças de conteúdo focadas em correlações informacionais, além de se valer de recursos gráficos e interativos para tornar mais agradável a experiência de visualização do usuário consumidor de notícias.

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“O jornalismo está morrendo”. “Jornais de ampla tradição e reconhecimento estão fechando suas portas em diversos lugares do mundo”. “Ninguém mais lê notícias”.

Frases como essas têm sido escutadas e ditas com frequência recentemente e têm uma parte de razão. Realmente, já não é comum observar pessoas abrindo as folhas de um jornal no banco da praça para saber as novidades do país.

Ao mesmo tempo, os serviços de streaming e as plataformas audiovisuais estão conquistando boa parte dos habituais espectadores de telejornais.

Mas os autores das sentenças anteriores podem estar desinformados sobre a última boa nova: a transformação digital alcançou o jornalismo e veio para ficar.

O principal expoente desse movimento é o jornalismo de dados, que vem promovendo mudanças importantes no processo de produção de informações e no seu consumo pelos usuários nos sites de notícias.

Os recursos e ferramentas de Big Data e People Analytics estão sendo incorporados às redações dos jornais, permitindo o acesso a informações mais valiosas, confiáveis, completas e adaptadas ao dinamismo da leitura digital.

Em seguida, vamos apresentar as principais novidades do cenário do jornalismo de dados dentro e fora do Brasil e o impacto delas na nossa maneira de ver o mundo.

Se você não quer ficar desatualizado sobre o tema, ler o conteúdo até o final é sua melhor decisão.

O que é o Jornalismo de Dados?

Em essência o jornalismo de dados é um método de produção de notícias orientado ao uso de informações e elementos de valor numérico, com o objetivo de produzir correlações que permitam chegar a conclusões precisas e relevantes sobre temas de interesse do público.

O caráter disruptivo desta modalidade profissional se mostra no rompimento da rotina do jornalista convencional, formada pelo trabalho de campo nas ruas a partir da pauta elaborada manualmente, as entrevistas presenciais ou por telefone e a geração de um conteúdo noticioso ao final.

Com o jornalismo de dados, a lógica se inverte. Em vez de se propor um tema de investigação e depois partir para a busca ativa das informações, os editores e repórteres mergulham nos acervos de dados coletados e identificam lacunas ou pontos de conexão que valem ser explorados com mais profundidade. Portanto, é a análise de dados que dá início ao processo de produção de notícias, ganhando um papel muito mais significativo.

Como surgiu o conceito de Jornalismo de Dados?

O termo em inglês “Data-driven Journalism” começou a ser utilizado em 2009 para designar as iniciativas de produção de notícias a partir de dados estruturados nos Estados Unidos, sendo adaptado aos diferentes idiomas nos anos seguintes.

A elaboração de um conceito para a atividade respondeu à necessidade de dar forma e impulso ao novo modelo jornalístico, facilitando a sua difusão pela comunidade profissional e norteando estudos acadêmicos e independentes sobre o tema.

Muitos comunicadores da área têm, inclusive, incluído o trabalho com dados em seus perfis profissionais para estarem adaptados às demandas de contratação dos veículos e das empresas que estão vivendo a transição para a produção guiada por dados.

Quando o jornalismo começou a trabalhar com dados?

A pergunta parece até estranha, não é mesmo? Afinal, o jornalismo sempre teve como pilar a veracidade das informações transmitidas nas reportagens de todos os formatos.

De fato, a longa história do jornalismo já presenciou iniciativas e ações focadas em dados estatísticos, que subsidiaram a interpretação do leitor sobre o tema abordado.

O primeiro exemplo do qual se tem notícia vem do jornal norte-americano The New York´s Tribune que, em 1849, publicou na página de capa um gráfico completo e visualmente amigável sobre a epidemia de cólera que atingiu a cidade naquele ano.

imagem gráfico

Ainda que a medicina não tivesse avançado o suficiente para compreender as causas da enfermidade, a matéria do jornal alertou a população para a sua capacidade letal e a necessidade de mobilizar esforços para prevenir um número massivo de mortes.

O gráfico mostrava a proporção de mortes por cólera em relação ao número total de óbitos na cidade, evidenciando um problema municipal de grande interesse público.

Uma outra referência de jornais impressos que estavam à frente do seu tempo no uso de dados é o The Philadelphia Inquirer, ganhador de 17 prêmios Pulitzer entre 1975 e 1990.

No ano de sua primeira premiação, foi contratado um repórter dedicado a analisar exaustivamente os números do censo da cidade, gerando matérias a partir deles.

O surgimento da Internet foi, no entanto, o maior propulsor do jornalismo de dados no mundo, pois permitiu a formação de imensas bases de informação com fácil acesso e interpretação.

Ainda assim, boa parte do volume de dados gerados não era usada com intensidade pelos jornalistas até o fim da década de 2000, pela dificuldade dos profissionais em lidar com a complexidade das correlações estatísticas.

O problema diminuiu com o surgimento de ferramentas digitais que automatizaram a estruturação de dados.

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Por quê os dados podem ajudar o jornalismo?

Entenda agora quais são as principais vantagens de se associar os dados ao jornalismo:

Não são influenciáveis a interesses particulares

A credibilidade jornalística dos meios de comunicação tradicionais tem sido colocada em cheque com muita força nos últimos anos, principalmente com a eclosão de notícias falsas em redes sociais.

Tendo em conta que a informação de qualidade é a principal matéria prima da investigação jornalística, é fundamental que ela venha de fontes confiáveis e que não sejam influenciadas por interesses comerciais ou ideológicos. E quem pode ser melhor que os números para garantir uma origem isenta para os fatos?

A premissa principal do jornalismo de dados é apresentar com facilidade e limpeza as informações numéricas relacionadas ao tema do conteúdo, permitindo que a avaliação do leitor seja embasada em estatísticas e não em suposições ou versões pessoais, que muitas vezes são distorcidas pelas fontes convencionais das entrevistas.

Aumentam a qualidade das produções

A análise de dados permite conectar porções limitadas de informação sobre problemas e situações complexas e diversificadas, favorecendo que os conteúdos sejam mais completos e proponham uma assistência mais completa e eficiente à avaliação do leitor.

Além do mais, a multiplicidade de formatos de exibição dos dados proporciona ao usuário uma experiência mais completa e interativa, pois ele pode navegar pelos gráficos e quadros na ordem de sua preferência.

O mapa de bolhas abaixo, disponível no site Flowing Data, mostra dados muito interessantes sobre as correlações entre as profissões das pessoas que se casam nos Estados Unidos:

mapa de bolhas

Os principais recursos de visualização de dados usados atualmente nos sites de notícia são:

  • gráficos e tabelas interativas;
  • infográficos animados;
  • mapas geográficos de calor;
  • painéis de bolhas;
  • diagramas;
  • entre outros.

Quais recursos e ferramentas permitem que o Jornalismo de Dados seja realizado?

Neste momento você pode estar se perguntando: mas como os jornalistas estão trabalhando tão bem com os números, mesmo sendo de humanas?

Apesar de ser necessária uma capacidade analítica razoável para produzir notícias orientadas a dados, a resposta do sucesso está na série de ferramentas e recursos digitais que as empresas de comunicação têm sabido aproveitar para guiar suas iniciativas.

Alguns exemplos são os seguintes:

Big Data

As ferramentas de Big Data permitem estruturar o volume de grandes bases de dados, permitindo a realização de filtros e parâmetros comuns que separem a informação gerada de acordo com o interesse do jornalista e a categoria temática que vai explorar em uma matéria.

Ao mesmo tempo, os dashboards desenhados de maneira responsiva e agradável criam as condições ideais para uma análise completa de dados e um melhor direcionamento dos pontos de conexão existentes entre as informações disponíveis.

Lapidar os dados existentes em estruturas montadas com ferramentas técnicas melhora o processo produtivo das notícias e oferece uma imersão do usuário no conteúdo final, na qual ele é impactado com flutuações visuais na página e elementos em diversos formatos (vídeos, imagens, GIF’s, infográficos).

A foto abaixo é de uma matéria do New York Times que foi dividida em 7 partes, incluindo um mapa, construindo um storytelling que envolve o leitor no conteúdo.

storytelling no jornalismo

Análise Semântica

O usuário é o protagonista do mundo digital, o que é claramente comprovado pela existência das estratégias de SEO, que buscam posicionar bem um site ou blog no Google. Como esse conceito se aplica ao jornalismo de dados?

As ferramentas de análise semântica fazem uma compilação de palavras-chave espalhadas pela Internet, tanto as que representam a pesquisa por informação em motores de busca como as que expressam comentários em redes sociais ou fóruns. Mais um grande volume de dados, certo?

Assistidos pelos aplicativos de inteligência semântica, os jornalistas podem decifrar a intenção do usuário e os temas de maior interesse entre fragmentos da audiência, combinando palavras-chave para gerar ideias de conteúdos.

Github

Aproveitando o princípio da colaboração no ambiente digital, jornalistas de diversos meios e canais têm utilizado o Github para encontrar referências de desenvolvimento de aplicativos e de estruturação de dados.

A plataforma é utilizada por programadores e desenvolvedores para a divulgação de experiências e novas criações, gerando uma rede de softwares de código aberto que as empresas de comunicação podem utilizar para criar seus próprios aplicativos de notícias, otimizados para a experiência do usuário e a visualização responsiva de dados.

Entre todos os tipos de linguagem de programação dos projetos disponíveis na comunidade, o Python é o mais indicado para jornalistas.

A linguagem é bastante acessível e completa, proporcionando a elaboração de ferramentas de machine learning, aplicativos de notícias ou o uso de recursos de coleta de dados automática.

jornalismo de dados imagem

Bases de Dados públicas

Os acervos de dados oficiais e de pesquisas como o censo demográfico são absurdamente grandes e interpretá-los manualmente não é a atividade mais convidativa para um jornalista.

Para que toda essa informação não fique perdida e seja desaproveitada, as ferramentas de engenharia de dados têm sido aplicadas por repórteres e produtores para filtrar e organizar com mais eficiência o volume de números e estatísticas produzido pelos órgãos públicos.

Um caso bem-sucedido desta análise foi o trabalho do jornal argentino La Nación, que utilizou o Big Data para criar uma plataforma colaborativa que permite destrinchar os gastos dos senadores do país e outra para mostrar os votos dos deputados e senadores em cada lei apresentada no Congresso.

jornalismo de dados 4

Produtos do Google para a estruturação de dados

O papel de organizar toda a informação do mundo, lema do Google, não permite que a empresa fique de fora do crescimento do jornalismo de dados.

Sendo assim, vários produtos e serviços da gigante são utilizados para sistematizar números e informações que servirão de base para as reportagens e matérias produzidas, desde os mais simples e conhecidos até outros, mais específicos e sofisticados.

Abaixo listamos alguns deles:

Google Sheets

Planilhas editáveis automaticamente e salváveis na nuvem, para a criação de tabelas, gráficos e arquivos de acesso compartilhado.

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Explorador de Informação Pública

Recurso que permite a extração automática de informação em bases públicas de dados e a conversão dos números em tabelas e gráficos.

explorador de informação pública

OpenRefine

Software OpenSource que oferece recursos para o tratamento, a filtragem e o processamento de grandes volumes de dados não estruturados, favorecendo análises complexas.

case OpenRefine

Quais sites de notícias estão se saindo bem com essa perspectiva orientada a dados?

Além dos exemplos que já mostramos até aqui, há uma série de sites de notícias que já aceleraram a sua adaptação ao jornalismo de dados, produzindo materiais de grande relevância e qualidade técnica.

Vamos aos exemplos:

The Pudding

A publicação norte-americana é uma das estrelas do cenário mundial do jornalismo de dados.

Fundada em Janeiro de 2017 já com a proposta de difundi-lo, o site promove uma experiência completa e dinâmica ao usuário, entregando matérias cheias de recursos e gráficos de visualização de dados que tornam a leitura mais fácil e atrativa.

Na descrição do site, está a afirmação de que as histórias visuais são o futuro do jornalismo e a informação de que o conteúdo é produzido por 6 jornalistas/engenheiros, o que deixa claro o propósito de ser exemplos do movimento que querem ver acontecendo.

Para fechar com chave de ouro, os editores do site disponibilizam tutoriais completos dos recursos e processos que utilizam em suas produções, para que jovens jornalistas e outros interessados possam seguir o caminho do jornalismo de dados.

A imagem abaixo é de uma matéria que compilou as manchetes de notícias internacionais dos jornais norte-americanos ao longo dos últimos 118 anos! Seria possível produzir um conteúdo como este sem as ferramentas de engenharia de dados?

case The Pudding

O Estado de São Paulo

Conhecido como um dos jornais mais tradicionais do Brasil e fundado em 1875, o Estadão foi um dos primeiros veículos de comunicação nacionais a abrir suas portas para o uso de dados na produção de notícias.

Dentro do portal há uma seção específica de infográficos, que o usuário pode acessar e compartilhar em suas redes sociais.

Um dos projetos mais conhecidos do jornalismo de dados do Estadão foi o dos debates presidenciais das eleições de 2018, no qual o jornal utilizou 4 câmeras para filmar as expressões faciais dos candidatos durante o evento.

O resultado foi um infográfico que continha uma análise das oscilações das fisionomias de cada presidenciável.

case Estadão

The New York Times

O jornal impresso mais conhecido mundialmente tem conseguido sobreviver à transformação digital em grande estilo.

Além de contar com um modelo de negócio por assinaturas, a empresa tem investido muito tempo e energia na realização de matérias longas e bastante interativas.

Na reportagem ilustrada na foto abaixo, que apresenta os agentes causadores de diversas doenças dentro do corpo humano, o usuário encontra a possibilidade de acessar de forma completa os recursos de realidade aumentada do conteúdo ao escanear a tela com um QR Code.

case The New York Times

Qual é o impacto do Jornalismo de Dados para o usuário?

Para além da visualização atrativa das estatísticas dentro dos conteúdos, o jornalismo de dados é uma metodologia de produção de notícias que transforma a percepção da sociedade sobre o valor da informação.

Afinal, o consumo tradicional de notícias em telejornais, jornais impressos e programas de rádio perdeu força nos últimos anos pela forma na qual são transmitidos, que ainda se mantém presa aos roteiros costumeiramente ensinados na maioria das universidades.

Essa é uma das razões que explicam o sucesso dos blogs corporativos, que priorizam a entrega de informação relevante em formatos diversificados e em páginas otimizadas às melhores práticas de experiência do usuário.

Para o bem dos leitores digitais, o jornalismo gradualmente está despertando para a transformação digital, proporcionando as condições estéticas e técnicas necessárias para que as pessoas se interessem pelo que está sendo transmitido.

O jornalismo de dados coloca o usuário em primeiro lugar e é honesto com a entrega das informações.

Quais são os próximos passos do jornalismo de dados

A inovação tecnológica tende a chegar a proporções cada vez mais surpreendentes, o que torna difícil a tarefa de prever quais serão as próximas possibilidades e ferramentas para o jornalismo de dados.

Mas algumas delas dão sinais de se encaixarem perfeitamente com a perspectiva que move essa modalidade de produção de notícias.

O uso de inteligência artificial na coleta de informações e na tentativa de compreender a intenção do usuário que busca notícias é um caminho factível, considerando a atual facilidade para elaborar algoritmos que orientam a navegação digital.

Por outro lado, poderão surgir novos modelos de negócio colaborativos que permitam escalar o jornalismo de dados, já que a área de atuação do Data Journalist está se expandindo e deve alcançar também os centros de formação universitária em determinado momento.

De todas as formas, a atenção às tecnologias disruptivas é a posição mais indicada para as empresas de comunicação, que têm à disposição um grande campo de testes para oferecer aos seus usuários a melhor informação vinculada à melhor experiência de consumo de conteúdo.

São as cenas dos próximos capítulos, ou melhor, dos próximos fatos.

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